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quinta-feira, maio 22, 2003

Por cá

A psicologia é uma ciência exacta

É cada vez mais difícil manter um ódio de estimação. Não é que nos últimos dias três personagens que pouco aprecio (qual deles será o ódio de estimação?) se portaram de uma maneira que nem do reverendíssimo Adriano Moreira nos atrevemos a esperar? Lá por Felgueiras, o Dr. Assis enfrentou os energúmenos e o Dr. Barroso disse que os energúmenos eram (e são ) energúmenos. Hoje, quando do caso do Dr. Pedroso, o Dr. Louça respondeu exemplarmente a uma jornalista que bem tentou que ele se portasse mal. Em contrapartida, o Dr. Soares Bernardino foi igual a sis próprios. Que havia de haver uma reunião, e que não se importava nada de votar para o outro ir dentro.
Como diria o imortal Marlowe, a psicologia é uma ciência exacta.

quarta-feira, maio 21, 2003

Da formação de professores


«Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. (..) . O pregador há-de pregar o seu e não o alheio(..) porque o alheio e o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência.
(..) Com redes alheias ou feitas por mãos alheias, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço.(..). A pregação tem umas cousas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o faz quem faz rede.(..)
As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.»

PE António Vieira - Sermão da Sexagésima

Os erros do manual
ELSA COSTA E SILVA (DN 20/5)

Sabia que Portugal tem 22 distritos? E que a Ditadura Militar teve início em 1923? Ou que durante o Estado Novo um dos órgãos de soberania nacional era a Assembleia Geral? Estes não são erros de um qualquer compêndio de «asneiras» de estudantes portugueses, mas sim factos constantes de um manual escolar de estudo do meio escolhido por dezenas de professores e adoptado em inúmeras escolas de Portugal, sem que o Ministério da Educação (ME) tenha reagido em tempo útil.

Carlos Letra, responsável da editora Gailivro, que publica o compêndio destinado ao 4.º ano, «Estudo do Meio do João», admite a existência dos erros, mas garante que os mesmos já foram detectados em final de Outubro passado e corrigidos. Não a tempo de impedir que este manual, que foi o mais adoptado a nível nacional, esteja a ser usado por mais de 18 mil alunos.
(..)
José António Gomes, professor da Escola Superior de Educação do Porto, não fica surpreendido pela existência de manuais escolares com erros e afirma que esta é «uma situação que tem vindo a ser mais frequente de alguns anos a essa parte». O que se pode dever ao facto de haver «cada vez mais jovens professores a fazer manuais, nem sempre com a melhor formação científica e com pouca preparação anterior».


Simone Weil

Simone Weil
By Susan Sontag

Nota a Selected Essays
by Simone Weil, translated by Richard Rees
Oxford University Press


(...) Perhaps there are certain ages which do not need truth as much as they need a deepening of the sense of reality, a widening of the imagination. I, for one, do not doubt that the sane view of the world is the true one. But is that what is always wanted, truth? The need for truth is not constant; no more than is the need for repose. An idea which is a distortion may have a greater intellectual thrust than the truth; it may better serve the needs of the spirit, which vary. The truth is balance, but the opposite of truth, which is unbalance, may not be a lie.
Thus I do not mean to decry a fashion, but to underscore the motive behind the contemporary taste for the extreme in art and thought. All that is necessary is that we not be hypocritical, that we recognize why we read and admire writers like Simone Weil. I cannot believe that more than a handful of the tens of thousands of readers she has won since the posthumous publication of her books and essays really share her ideas. Nor is it necessary - necessary to share Simone Weil's anguished and unconsummated love affair with the Catholic Church, or accept her gnostic theology of divine absence, or espouse her ideals of body denial, or concur in her violently unfair hatred of Roman civilization and the Jews. Similarly, with Kierkegaard and Nietzsche; most of their modern admirers could not, and do not embrace their ideas. We read writers of such scathing originality for their personal authority, for the example of their seriousness, for their manifest willingness to sacrifice themselves for their truths, and- only piecemeal - for their "views." As the corrupt Alcibiades followed Socrates, unable and unwilling to change his own life, but moved, enriched, and full of love; so the sensitive modern reader pays his respect to a level of spiritual reality which is not, could not, be his own.
Some lives are exemplary, others not; and of exemplary lives, there are those which invite us to imitate them, and those which we regard from a distance with a mixture of revulsion, pity, and reverence. It is, roughly, the difference between the hero and the saint (if one may use the latter term in an aesthetic, rather than a religious sense). Such a life, absurd in its exaggerations and degree of self-mutilation - like Kleist's, like Kierkegaard's - was Simone Weil's. I am thinking of the fanatical asceticism of Simone Weil's life, her contempt for pleasure and for happiness, her noble and ridiculous political gestures, her elaborate self-denials, her tireless courting of affliction; and I do not exclude her homeliness, her physical clumsiness, her migraines, her tuberculosis. No one who loves life would wish to imitate her dedication to martyrdom nor would wish it for his children nor for anyone else whom he loves. Yet so far as we love seriousness, as well as life, we are moved by it, nourished by it. In the respect we pay to such lives, we acknowledge the presence of mystery in the world - and mystery is just what the secure possession of the truth, an objective truth, denies. In this sense, all truth is superficial; and some (but not all) distortions of the truth, some (but not all) insanity, some (but not all) unhealthiness, some (but not all) denials of life are truth-giving, sanity-producing, health-creating, and life-enhancing.
(…) The principal value of the collection is simply that anything from Simone Weil's pen is worth reading. It is perhaps not the book to start one's acquaintance with this writer -Waiting for God, I think, is the best for that. The originality of her psychological insight, the passion and subtlety of her theological imagination , the fecundity of her exegetical talents are unevenly displayed here. Yet the person of Simone Weil is here as surely as in any of her other books - the person who is excruciatingly identical with her ideas, the person who is rightly regarded as one of the most uncompromising and troubling witnesses to the modern travail of the spirit


terça-feira, maio 20, 2003


Joseph Conrad

"(...) todo o meu ser moral e intelectual está entranhado da crença inabalável de que, seja o que for que tombe no campo dos nossos sentidos, é fatalmente uma coisa da natureza, pelo que não pode diferir essencialmente de todos os demais fenómenos do mundo, que vemos e tocamos, do qual somos apenas uma parte consciente, ainda que excepcional. O mundo da vida contém no seu interior, tal como é, suficientes maravilhas e mistérios; maravilhas e mistérios que agem sobre a nossa sensibilidade e a nossa inteligência por modos tão inexplicáveis que quase poderiam justificar uma concepção da vida como condição mágica. Não; possuo suficiente decisão na minha consciência do maravilhoso para não me deixar seduzir pelo sobrenatural, que não passa (seja como for) de um produto manufacturado, resultado de espíritos insensíveis à complexidade das nossas relações tanto com os mortos como com os vivos, em toda a sua multiplicidade inumerável; uma profanação das nossas recordações mais delicadas; um insulto à nossa dignidade.
Por grande que seja a minha modéstia natural, nunca me inferiorizarei a ponto de buscar para a imaginação qualquer espécie de apoio nessas invenções mentirosas, presentes em todas as épocas e que, só por si, já bastam para encher de uma amargura incomparável todos os que têm algum amor à espécie humana. Quanto ao efeito do sobrenatural como choque na sensibilidade ou no espírito de um homem banal, trata-se de um tema de análise e estudo absolutamente legítimo. A constituição moral do senhor Burns sofre um embate violento na sequencia das suas relações pessoais com o seu antigo capitão, e esse embate, quando Burns adoece, transforma-se em pura fantasia supersticiosa, numa mescla de animosidade e de medo. Tal facto compõe um dos elementos da história, mas nele nada há de sobrenatural, nada que, por assim dizer, transborde dos limites finais deste mundo, mundo que, para toda a consciência, encerra dentro de si próprio suficiente enigma e suficiente pavor."

Nota a "Linha de Sombra"

segunda-feira, maio 19, 2003

Do produtor ao consumidor

O Trigre

Era uma vez um trigre que vivia na floresta, como acontece em geral com esses animais. Era uma espécie de gato enorme e listrado, que passava grande parte do tempo a dormir ao sol, e que se deslocava com movimentos lentos e flexíveis. Falava pouco, até porque não tinha muito quem o ouvisse. Era um caçador terrível, e quando tinha fome não havia presa que lhe escapasse. Era capaz de caçar búfalos enormes, antílopes velocíssimos e mesmo aves que voassem baixo. Uma vez, que estava com muita fome, experimentou comer uma pessoa, mas não gostou - achou que tinha muitos ossos. Se quisesse, até era capaz de caçar um elefante ou um rinoceronte, mas prudente como era, nunca quis. Enfim, era uma fera magnífica, que tentava viver sossegada a sua vida e só comia os outros porque tinha fome e não gostava de couves. Era grande, forte e rápido e não precisava de ninguém.

Não precisava de ninguém? Não era bem assim! De facto, não podia viver sem a sua companhia de todos os dias, um pássaro sem grande aspecto, maior que um pardal e mais pequeno que um corvo, com uma voz irritante, que falava pelos cotovelos, se é que os pássaros têm cotovelos, e não parava quieto. Isso mesmo, uma gralha.

Podia parecer que se tratava da companhia menos adequada para o majestoso trigre, mas os animais são como as pessoas, ou vice versa, e muitas vezes dão-se melhor com os que são mais diferentes.
E a verdade era que a gralha se tornou completamente inseparável do trigre. Até que um dia...

Até que um dia o trigre se afastou um bocado mais que de costume a tentar arranjar uma ou duas vaquitas para o pequeno almoço. Depois -estava um dia bonito- ficou a preguiçar ao sol em cima de um rochedo e atrasou-se para almoçar. Quando finalmente chegou ao sítio, ao pé de um rio, onde tinha ficado de se encontrar com a gralha, ela não estava lá. Tinha fugido para bem longe, assustada com um bando de revisores (os inimigos naturais das gralhas) que tinha avistado na outra margem, entre as árvores. E fugiu para tão longe que não encontrou o caminho de volta.

O tempo foi passando e a gralha continuava a não conseguir ir ter com o trigre. Este a princípio tinha ficado muito preocupado até porque também tinha visto os revisores e ninguém lhe queria dar notícias. Também nenhum animal gostava muito de estar em conversas de perto com o trigre, por razões evidentes. Mas lá acabou por conseguir falar com uma águia e ficar a saber que os revisores só tinham conseguido apanhar uma grahla que vivia sozinha do outro lado da floresta. Percebeu então o que se tinha passado e pôs-se também a procurar a gralha pelo seu lado. Mas também não a conseguiu encontrar.

O trigre andava um bocado triste com a falta da gralha, e a gralha com a falta do trigre, e todos os dias pensavam um no outro, mas foram-se habituando.

A gralha encontrou novas companhias, e passado algum tempo era a amiga inseparável de uma zerba. Aliás as riscas da zerba faziam-lhe lembrar o seu velho amigo trigre.

O tigre, sem a gralha, nunca mais voltou a ser o mesmo.


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